Educação para o Bem Viver

Rios voadores e a chuva (ou a falta dela): como tudo está interligado

CEEJA incluí reflexões socio-ambientais no currículo da Educação de Jovens, Idosos e Adultos

Imagem 1  – Chuva dos  rios voadores – fonte:  Agencia Nacional de Águas e Saneamento básico (ANA).

             É noticiado, neste 2021, que falta chuva nos estados da região Sudeste, Sul, Centro Oeste, e, em contrapartida, é divulgado, também, o perigoso aumento de queimadas em pastos e florestas de todo país, especialmente na região Sudeste, no Pantanal e na Amazônia. Mas, o que liga regiões tão distintas e a temática da chuva? Na Amazônia, que está na região norte, e distante das outras regiões, não chove todos os dias? E, o que tem haver a chuva na região norte, a floresta, e as demais regiões do país e a seca que se faz?

            Para entender os questionamentos do parágrafo anterior, se faz necessário pensar que, na natureza, os fenômenos estão todos interligados, onde um ciclo afeta o outro. Vivemos em um planeta
que funciona como sistema (ver: Teoria Geral dos Sistemas), onde um fenômeno afeta o outro e assim por diante.  A ideia da natureza como um sistema é fundamentada por Edgar Morin, que
diz que nesta, existem numerosos processos e sistemas diferentes que se retroalimentam, se permeiam e se afetam. Os sistemas físicos, biológicos e humanos se permeiam e afetam a natureza, que se constitui como um gigantesco sistema complexo. Aprendemos, nas matérias de ciência e geografia que existe o ciclo da água, onde está evapora, se condensa, forma chuvas, que caem sobre a terra, e, uma parte vai para o subsolo, outra evapora, outra ainda fica nos rios e uma parte fica com os seres vivos, que transpiram essa água, que volta a atmosfera e recomeça o ciclo. Porém, este ciclo não é tão simples, podendo sofrer alterações, pensando aqui na complexidade que Edgar Morin aponta, e é
cada vez mais corroborada pelos estudos e avanços da ciência na compreensão da natureza e seus fenômenos.

            No caso das regiões Sudeste, Centro Oeste e Sul do Brasil, a chuva vem da região amazônica. A floresta capta a água de massas de água do oceano atlântico, que vem em forma de vapor, e chovem na floresta não à toa, visto que as massas de vapor se chocam com a cordilheira dos Andes e se precipita sobre a floresta. Facilita a ocorrência de chuva o fato de, quando as plantas da floresta amazônica transpiram, além de liberar vapor de água, liberam também sais de potássio, que ajudam, nas nuvens, a aglutinar as moléculas de água e formar chuva. Este processo de transpiração da
floresta chama-se evapotranspiração (evapo vem de evaporação, provenientes de rios e lagos. Já transpiração é o processo dos seres vivos, no caso, as plantas, de transpirarem essa água). É importante saber isso, pois a floresta atua como uma grande bomba d’agua , jogando todos os dias milhões de
litros para a atmosfera.
       

 

 

Imagem 2 – Diagrama que mostra a formação dos rios voadores. Fonte: Projeto Rios Voadores (https://riosvoadores.com.br/o-projeto/fenomeno-dos-rios-voadores).

 

É importante entender aqui que o processo de transpiração da floresta alimenta a ocorrência de chuvas no Sudeste, Centro Oeste e Sul do país. Como o volume de água transpirada e transportada por correntes de ar é gigantesco, ganho o apelido de Rios Voadores ou Aéreos. 

 Uma parte da água transpirada e vapor do mar se precipita como chuva na floresta, e outra segue para os andes, onde se precipita e forma as cabeceiras dos rios amazônicos. Já outra parte dessa grande quantidade de vapor d’agua bate nos andes e segue para formar as chuvas da região Sudeste, Centro Oeste e Sul, além de alimentar países como Paraguai, Uruguai e norte da Argentina. Esta chuva alimenta os reservatórios de água, plantações, rios, floretas, cidades etc

Se existem estes rios voadores, por que não chove como antes?

             Diversos fenômenos resultam na alteração das chuvas na região Sul, Sudeste e Centro Oeste do país, e podemos listar alguns destes.

            Desde 2019 houve um grande aumento de queimadas e desmatamento na região amazônica, pantanal e, em 2020 e 2021, sudeste e centro oeste do país (um evento conhecido como dia do fogo, onde os apoiadores do governo fizeram queimadas para apoiar o presidente e demonstrar trabalho). Se a floresta amazônica está sendo destruída, como a evapotranspiração irá ocorrer?

Imagem 3 – Queimada na zona leste de Marília, em 2020. Fonte: G1. (https://g1.globo.com/sp/bauru-marilia/noticia/2020/08/31/queimada-atinge-area-de-pastagens-as-margens-de-avenida-em-marilia.ghtml).

 “As queimadas agravam também a falta de chuva na região. Segundo o projeto “Expedição Rios Voadores”, a destruição da floresta amazônica resultará em impactos em todas as regiões abaixo dela, a saber, Sul, Sudeste e Centro Oeste. Sem a floresta, a umidade do ar cai, o que aumenta a temperatura, e dificulta as chuvas.

            Também é importante levar em conta o como as queimadas dificultam as chuvas. Segundo pesquisa científica elaborada pelo Instituto de Física da USP (Universidade de São Paulo), divulgada via Jornal da USP, o aumento de queimadas dificulta a produção de chuvas. Em condições normais, o vapor de água e os aerossóis liberados pelas plantas de forma natural aglutinam as gotas de chuva na atmosfera antes dos 0ºC. Porém, com as queimadas, há mais partículas (poluição, constituída de fuligem, fumaça, cinzas), e tal dificulta a aglutinação de moléculas de água, necessitando cada vez mais de temperaturas menores de -18ºC. Ou seja, as queimadas que ocorrem na Amazônia dificultam a formação de chuvas na Amazônia e, as queimadas fora daquela região também agravam a situação.

            Infelizmente, desde 2019, o número de queimadas aumentou exponencialmente no país, principalmente em regiões de mata que não são típicas da ação do fogo, como nos alagados do Pantanal, levando a conclusão de que foi a ação humana como responsável pelas queimadas em tal região, bem como na Amazônia e, ainda, nas já citadas regiões Sul, Sudeste e Centro Oeste.

            Diante deste cenário de destruição das florestas e queimadas contínuas, infelizmente os rios voadores sofrem alterações que tornam as chuvas mais escassas. Afinal, com o menor número de árvores, menos evapotranspiração, e, com mais queimadas, existem mais poluentes que dificultam a aglutinação de moléculas de água para a tão desejada chuva.

Imagem 4 – Representação artística da substituição da floresta por pasto, o que resulta na falta de água para a cidade, ao retirar as fontes dos rios aéreos. .Autor: Wilson Teixeira Moutinho

 


Quais as consequências dos rios voadores serem alterados?

             A primeira consequência, a curto prazo, é o aumento de preço dos alimentos, visto que, a alteração das chuvas traz mais consequências para a agricultura, que dependerá mais da irrigação artificial, captando água (quando possível) de locais de maior dificuldade (subsolo, fontes distantes como rios, etc). Tais dificuldades aumentam o uso de recursos que oneram (eletricidade, por exemplo, para fazer o bombeamento dessa água), aumentam mão de obra, e, isto é repassado para o preço

dos alimentos. Claro que o atual preço dos alimentos não é só proveniente da seca, mas, também, de fatores relacionados à exportação, porém, com o agravamento, o aumento do preço se fará de forma mais acentuada.

            Como segunda consequência, a curto prazo também, é a escassez de água em cidades, que leva a medidas de racionamento forçadas, e, ainda, de reservatórios vazios para a geração de energia elétrica, o que aumenta as chances de apagão. Também há o aumento dos custos de energia, visto que, sem água, se necessita de usar cada vez mais de usinas termoelétricas (funcionam queimando gás natural para gerar eletricidade), o que torna a energia elétrica mais cara e, ainda por cima, agrava o problema com a poluição.

            À médio e longo prazo a alteração do ciclo de chuvas pode causar processos de alterações
climáticas, que podem levar à formação de climas mais secos, afinal, se as plantas nativas morrem, o solo fica desprotegido das ações do clima, como exposição à luz solar (que resseca a terra), erosão pelo vento (eólica) e pela chuva (pluvial), afinal, sem uma cobertura, a chuva causa danos à terra, bem
como leva as camadas superficiais pela enxurrada. 

Possíveis ações para reverter este processo:

             Ao tomarmos consciência de que as mudanças ambientais causam alterações nos rios voadores, e que tais mudanças impactam negativamente a vida como um todo, é de se pensar no como deter tais mudanças. 

            A primeira ação, de caráter paliativo, é economizar energia elétrica e água, bem como optar pelo não desperdício de recursos e pela reciclagem. Ao economizar energia elétrica e água, não usamos nossos recursos hídricos (água de rios, de subsolo, que é usada para consumo humano, agricultura, geração de energia elétrica) de forma desmedida, e retardamos consequências mais diretas, como apagões e racionamento de água e energia. Também afeta tal cenário o não desperdício, afinal, desperdiçar em recursos é desperdiçar a energia elétrica pelo qual se usou para produzir industrialmente, a água que se usou para fazer (principalmente em alimentos), e, no que tange a reciclagem, evitamos a destruição do ambiente reutilizando o material reciclado, o que ajuda a economizar energia elétrica e não usar tanta água (um exemplo é a produção do papel que consome muita água, e, ao reciclar, consumimos menos deste recurso precioso).

            Como segunda ação, ainda pensando em ações a curto prazo, podemos apontar o não fazer queimadas, seja de lixo, seja de pasto ou floresta. Ao não queimar as florestas estas aumentam a captura de carbono no ar, diminuindo o efeito estufa, e, reduzindo as micropartículas de poluição, aumenta as micropartículas oriundas da evapotranspiração, o que aumenta a possibilidade de chuva. Também há a consequência benéfica de reduzir a temperatura ambiente (em escala local, a preservação das floretas mantém a temperatura mais amena) e aumentar a umidade do ar.

            De um ponto de vista social, é importante se promover ações de reflorestamento, de punição aos desmatadores e fazer programas de recuperação de biomas, não focando somente em florestas/plantas, mas, nos seres vivos como um todo, visto que, para a manutenção de florestas, é
necessário a presença dos animais que fazem a polinização (abelhas, vespas, pássaros, morcegos), decomposição (formigas/insetos, urubus, fungos, etc), animais dispersores de sementes (mamíferos de pequeno porte, pássaros etc.), além das comunidades tradicionais da floresta (povo indígenas, caboclos, ribeirinhos, quilombolas, etc)

            Pelo ponto de vista político, se faz necessário analisar as propostas dos candidatos, e cobrar ações dos três poderes (legislativo, executivo e judiciário) dentro das três esferas de poder (municipal, estadual e federal) para a proteção e ações do ambiente, seja da Amazônia, seja de outros biomas e demais regiões do país, de modo a garantir a existência e manutenção dos rios aéreos, evitando efeitos catastróficos à médio e longo prazo.

            Por fim, é importante entendermos que tais consequências (da alteração do meio ambiente), por mais que não seja nossa culpa (no sentido de indivíduos), é responsabilidade de todos (social), e, temos de agir, pressionar politicamente, ter ações sociais para a preservação dos rios voadores e preservação da natureza como um todo. Afinal, se nada fizermos, agravaremos os fenômenos de falta de chuva que já estão presentes em nosso cotidiano.

 Fontes consultadas:

Arvores ‘Semeiam’ chuva na região amazônica, diz estudo da USP. G1 portal de notícias. Disponível em <http://g1.globo.com/natureza/noticia/2012/08/arvores-semeiam-chuva-na-regiao-da-amazonia-diz-estudo-da-usp.html>. Acesso em 14/09/2021.

BERNARDES, J. GOMES, S. Cientistas revelam como queimadas afetam a formação de nuvens de chuva na Amazônia. Jornal da USP. Disponível em < https://jornal.usp.br/ciencias/cientistas-revelam-como-queimadas-afetam-formacao-de-nuvens-de-chuva-na-amazonia/>. Acessado em 14/09/2021.

ESTRADA, A. A. OS FUNDAMENTOS DA TEORIA DA COMPLEXIDADE EM EDGAR MORIN. Akrópolis, Umuarama, v. 17, n. 2, p. 85-90, abr./jun. 2009. Disponível em < https://www.revistas.unipar.br/index.php/akropolis/article/download/2812/2092>. Acessado em 15/09/2021.

FENÔMENO DOS RIOS VOADORES. Portal Expedição Rios Voadores. Disponível em <https://riosvoadores.com.br/o-projeto/fenomeno-dos-rios-voadores/>. Acesso em 14/09/2021.

PENA, Rodolfo F. Alves. “Rios voadores da Amazônia”; Brasil Escola. Disponível em: <https://brasilescola.uol.com.br/brasil/rios-voadores-amazonia.htm Acesso em 14/09/2021.

MOUTINHO, W.T. Rios Voadores. Disponível em < https://www.coladaweb.com/geografia-do-brasil/rios-voadores>. Acessado em 15/09/2021.

 

 

 

 

Você também pode gostar...

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *