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“Não provoque!”

Na letra da canção Cor de Rosa Choque, Rita Lee canta: “Mulher é bicho esquisito. Todo o mês sangra. Um sexto sentido. Maior que a razão”(…)

De maneira geral, a música enfoca o tema “MULHER”, destacando algumas particularidades da personalidade feminina e, outras, comuns apenas a elas, como o ciclo menstrual. Inicialmente, ´poderíamos interpretar o verso como uma referência pejorativa ao ciclo menstrual feminino. Mas, ao contrário do que aparenta, estamos diante de um enaltecimento e valorização da força e da figura multifacetada da mulher, que, muitas vezes foi e ainda é considerada “esquisita” por menstruar.
O assunto em pleno século XXI e mesmo sendo da natureza feminina, ainda é cercado de tabus e isso pode estar ligado a equívocos e preconceitos transmitidos de geração em geração. No decorrer da História, o ciclo menstrual já transitou entre os extremos: já foi celebrado com festas relacionadas à fertilidade e já condenou mulheres à fogueira.
Tabus relativos à menstruação podem ser encontrados na Bíblia e no Alcorão destacando a “impureza” da mulher e de tudo aquilo que ela toca ou usa durante o período menstrual. Já para alguns povos antigos, a menstruação era muito poderosa para manter a terra fértil e garantir boas safras. Na Grécia Antiga, a mulher menstruada era considerada possuída por um espírito maligno. Segundo a psicóloga e professora da Faculdade de Medicina do ABC e autora da tese sobre os aspectos culturais da menstruação, a falta de informações pode ter sido fonte desta crença, pois o fato da mulher sangrar por vários dias seguidos e não morrer, era um mistério.
Durante a Idade Média, o catolicismo influenciou fortemente a forma como a população olhava para a menstruação. “Tornou-se uma coisa que fazia a mulher ser meio temida, a ponto de serem queimadas por isso. Eram consideradas bruxas pela Igreja”, fala a psicóloga Maria Regina.

“Não provoque!”

No Brasil do século XVIII, acreditava-se que o sangue menstrual podia ser o ingrediente principal de poções para enlouquecer pessoas e até para matar bebês. No século XIX, quando menstruavam, as mulheres se isolavam dos demais em função de crendices, tais como a de que o sangue podia azedar o leite, dentre tantas outras que dominavam o imaginário popular.

Por mais que os costumes tenham evoluído e o acesso à informação ampliado, muitos mitos em relação à menstruação ainda persistem na atualidade. Muitas mulheres não andam descalças durante o período menstrual, pois acreditam que o hábito pode piorar as cólicas. Nas Filipinas, uma parcela significativa das mulheres não toma banho e nem lavam os cabelos durante a menstruação, pois ainda impera o mito de que a água faz o “sangue subir para a cabeça, causando loucura”.

Também são proibidas de preparar certos alimentos, porque acreditam que não ficam tão bons. Na Índia, as mulheres menstruadas são consideradas “sujas” e intocáveis. Não podem entrar na cozinha, dormir na própria cama, se sentar à mesa com a família ou sair de casa. Em muitos lugares da África do Sul, as mulheres menstruadas são consideradas “impuras” e, por isso, não podem encostar em imagens religiosas, que são vistas como sagradas e nem entrarem em templos.

No Brasil, até os dias atuais, a própria palavra “menstruação” ainda é um tabu, sendo que outras expressões são usadas por grande maioria de mulheres para se referir ao período, como: “regras”, “aqueles dias”, “no vermelho”, “sinal vermelho”, “com visitas”, “de chico” (em Portugal, “chico” é sinônimo de porco – portanto, é uma maneira nada lisonjeira de relacionar a menstruação à sujeira). E, veja bem, são expressões usadas pelas próprias mulheres, que, em função da ausência de discussão, de esclarecimentos sobre o assunto, invisibilizam o ciclo menstrual e prejudicam a relação das mulheres com o próprio corpo.

Dai a necessidade cada vez maior de falar, discutir, questionar sobre tais assuntos, pois, embora a menstruação ainda seja muitas vezes associada a vergonha, sofrimento e medo, já se percebe uma sinalização de que muitas mulheres têm enxergado esse processo de maneira mais natural. Essa naturalização da menstruação se dá especialmente entre as mulheres que têm bastante acesso à informação, seja dentro da família, em conversas com as mães e irmãs, seja pesquisando sobre o assunto.

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