Educação em tempos de pandemia História

A pandemia de 2020 e a História – alguns apontamentos

A todos os alunos do CEEJA e comunidade geral, que tenhamos bons estudos, ainda que à distância, nos prevenindo e mantendo nossa saúde e a saúde coletiva.

null

Tempos de pandemia:

Vivemos um fato histórico, político, econômico e social único, uma quarentena com proporções globais, com um vírus de rápida disseminação, que já provoca muitas mortes. O mundo de ontem, de antes da pandemia já não existe mais, e a economia não irá se recuperar tão cedo. Hábitos simples como sair na rua e cumprimentar um conhecido com apertos de mão ou beijo no rosto já não serão como antes, mesmo após a pandemia. Novos hábitos terão de ser aprendidos, e reflexões em nível social terão de ser adotadas, como medidas para não se travar a economia, distribuição de renda, melhorias para a saúde pública, tudo isso tem de ser repensado e aplicado desde já.

Não devemos nos abater ou ficar numa posição pessimistas, mas, compreender o que está ocorrendo e nos empoderar com o conhecimento científico para termos base do como agir e prever as possíveis consequências e tomar ações assertivas. Ou seja, para entendermos os rumos que o mundo está tomando, temos de nos valer de diversas ciências, como biologia, medicina, sociologia, filosofia, geografia e história, pois, mesmo sendo uma doença (campo das ciências biológicas), ainda sim há consequências em outros ramos.

História:

A história é a área do conhecimento humano que visa explicar os fatos do presente e apontar possíveis consequências para o futuro através da análise do que ocorreu no passado. Ou seja, a história é uma área do saber humano que tem por objetivo a compreensão de como os fatos funcionam e se encadearam no passado para conseguir prever a repetição destes e evitar a repetição de erros/tragédias no futuro.

Todo ser humano é produtor e produto da história. Gostos, hábitos, formas de se vestir, de se alimentar, gírias, preconceitos, tudo isso é explicado pela história, inclusive guerras, tragédias, e, doenças!

Sim, a história, com ajuda de outras áreas do saber (medicina, biologia, geografia), consegue explicar o como várias doenças se desenvolveram durante diversos momentos, e o como isto influenciou a nossa sociedade. Logo, a história pode ajudar a entender melhor nosso atual momento de pandemia do COVID-19 e, ainda, fornecer subsídios para ações junto de outras ciências.

1- somos todos produtores e produtos da história:

Todo ser humano, ao nascer, passa pelo processo de socialização, que é a aquisição de cultura, ou seja, toda a informação que não é herdada geneticamente. A cultura é toda informação e saberes que é desenvolvida e passada para os outros, ensinada e aprendida de várias formas, e essas informações e saberes foram acumulados pela humanidade por milênios.

Enquanto vivemos, vamos aprendendo e tomando ações com nossa base de saberes, buscando satisfazer nossas necessidades, e assim vamos criando história, seja tecendo significações com locais que vivemos (história de vida), modificando estes locais (por exemplo, um local era pastagem e depois foi urbanizado, o que gera a história de um bairro ou cidade), criando novas formas de produzir riqueza (história econômica)…ou seja, a história pode se ramificar para diversos setores da vida humana.

É importante entender que todo ser humano tem e cria história! Mesmo que este não se veja como criador de história, ele, de forma direta ou indireta, influência outras pessoas, faz ações na sociedade, cria lembranças em outras pessoas, logo, tem e produz história.

A história tem 3 correntes: a positivista (que se baseia mais nos eventos históricos registrados em documentos oficiais), a marxista (que pensa as relações históricas com um foco na economia e como esta influencia os fatos históricos) e a chamada “escola de annales” (que pensa como certas ideias e mentalidades se desenvolvem durante a história). Todos estamos e podemos ser analisados por estes três prismas de história, e todos podemos analisar os fatos do mundo, do cotidiano, por estes prismas, e, o atual momento é mais do que propício para tal.

2- Pandemias ao longo da história:

Quando pensamos em pandemias (doenças que se alastram de forma muito extensa), podemos pensar em várias ao longo dos últimos 2000 anos. Entendemos que a primeira pandemia a ter um peso significativo foi a Peste Negra.

Imagem do vetor da peste negra, o Yersinia Pestis.
A Peste Negra (também conhecida como peste bubônica) correu na Europa, entre os anos de 1347 e 1351. Essa doença é proveniente de uma bactéria, a Yersinia Pestis, que é encontrada em ratos e suas pulgas. Seu nome deriva de bulbos, que remetem aos inchaços dolorosos que causa nas pessoas, principalmente por afetar o sistema linfático.

Os biólogos e geneticistas entendem que a doença se originou na China, onde ocorria uma grave crise econômica e climática que fez com que as pessoas ficassem mais suscetíveis a serem infectadas, matando mais de 25 milhões de chineses. Com as grandes navegações impulsionadas por Portugal, Espanha e a classe burguesa (que tinham o interesse de revender mercadorias orientais na Europa – mercantilismo comercial), além de conflitos com os povos mongóis (que catapultavam corpos de pessoas que morreram com a doença contra cidades inimigas), estes ratos e pulgas conseguiram migrar até a Europa.

É importante compreendermos que, na Europa do século 14 as condições de higiene eram muito precárias. Havia a crença de que era saudável uma camada de sujeira por cima da pele, e muitos europeus da época só tomavam banho uma vez por ano. O lixo, detritos, urinas e fezes não recebiam grande tratamento, e o estoque de comida era, em geral, em algum quarto, o que aumentava em muito o aparecimento de ratos, logo, aumentava a transmissão da bactéria.

Também não se compreendia que as doenças eram transmitidas por vetores e parasitas, no lugar disso, havia a crença de que as doenças tinham origem divina ou eram punição pela falta de fé. Havia uma teoria de que as doenças eram transmitidas por odores e fluidos (teoria miasmática e teoria humoral), e era o que se aproximava mais da realidade, porém, estas ideias não foram o suficiente para barrar as mortes: estima-se que ¼ da população europeia tenha falecido durante a peste negra. Isso gerou falta de mão de obra, o que se refletiu em alguma melhora com relação a população que sobrevivera – afinal, quanto maior a oferta, maior será o preço, isto é, havia mais demanda de trabalhadores que de fato havia, logo, poderiam cobrar mais pelo trabalho.

 
Funcionários públicos usavam roupas negras com touca bicos de madeira cheio de ervas cheirosas, com o objetivo de evitar os cheiros que, de acordo com a teoria miasmática, transmitiriam a doença.

De toda forma, a peste negra é melhor entendida quando pensamos a história dela em um contexto econômico, isto é, com o objetivo de lucro se faziam grandes navegações, o que facilitou a migração de ratos e a doença para a Europa, e, somado a isto, a mentalidade e a falta de conhecimento com noções básicas de higiene e saúde levaram à uma grande disseminação.

Importante entender que a doença não sumiu, tendo diversos surtos durante os séculos seguintes, porém, menores, pois, graças a teoria miasmática (de que cheiros ruins causavam a doença), começou-se um melhor tratamento de esgoto, lixo e cadáveres. Foi só com a invenção do microscópio (no final do século 16) que começou a se compreender como as doenças de fato se propagam e o que se esconde dentro de uma simples gota de água contaminada, o que levou à adoção de novos hábitos de higiene, bem como a formulação de uma nova teoria para explicar a propagação das doenças, a teoria microbiana, que usamos até hoje.

Gripe Espanhola:

Já no século XX, a gripe espanhola foi uma pandemia que começou durante a 1ª Guerra Mundial (1914-1918) e durou até 1920, muito provavelmente em acampamentos militares nos Estados Unidos e na França, onde havia, em pequenos espaços, muitos humanos, criações de animais que serviam de alimento e pouca higiene. Seu vetor é o vírus H1N1 (influenza), um vírus de gripe que provavelmente veio dos animais, e é transmitido de pessoa para pessoa através do ar (pela tosse) ou pelo contato com algo que esteja contaminado.

Seu nome se deve por causa da Espanha , um dos poucos países que não havia censura da imprensa, visto que a Espanha se manteve neutra na guerra, e pode ter uma imprensa livre, que noticiava sobre a epidemia sem problemas. Com o fim do conflito, os soldados levaram a doença para suas casas em diversos países, e, a censura com relação à doença deixou a população sem informações o suficiente, o que potencializou a disseminação da doença.

A gripe espanhola é considerada a primeira pandemia da era moderna, visto que ocorreu justamente no século 20. Sua disseminação foi favorecida com novas tecnologias de transporte, como o automóvel trens e navios com máquinas, o que fez com que, em poucos meses, somente pouquíssimas ilhas estivessem livres da doença. Estimou-se um número perto de 100 milhões de mortos no mundo.

No Brasil, a doença começou a chegar com o navio inglês Demerara, em setembro de 1918, e não foi levada à sério pela população e autoridades, até que as pessoas aqui começaram a morrer. As soluções para tal pandemia foram implementadas por Carlos Chagas, famoso médico sanitarista, e eram:

-quarentena de navios

-notificações da doença

-postos e hospitais de emergência/campanha

-fechamento do comércio

-medidas de fechamento de locais público e de grande aglomeração.

 

Importante destacar que, no Brasil de 1920, não havia sistema público de saúde, então muitas pessoas ficaram dependentes de instituições de caridade. O contágio foi tão grande que até o presidente do Brasil na época, Rodrigues Alves, morreu por causa da gripe espanhola.

 

Também há estudos que, nos Estados Unidos, as cidades que implementaram quarentena primeiro tiveram menos mortes, o que levou a menos impactos nas instituições sociais, menos problemas com relação ao sistema de saúde e funerário, além de uma recuperação econômica mais rápida.

3 – O que podemos aprender com as pandemias passadas?

Podemos aprender várias coisas com relação as duas pandemias focadas. Com relação à primeira (peste negra), que as condições sanitárias são importantes para barrar a disseminação de doenças, e isso é algo que ainda hoje temos de tomar cuidado. Ainda há, na população mundial, a falta de cuidados com a higiene simples como higienizar as mãos, o que leva ao espalhar vírus e bactérias, como o simples hábito de tossir na mão e cumprimentar alguém ou pegar em algo público como um corrimão e não higienizar as mãos.

Também podemos aprender que o trânsito de de doenças entre animais e humanos é algo sério e que traz consequências desde o final da idade média. A peste negra veio da pulga do rato, e o H1N1 (gripe espanhola) provavelmente veio de algum animal criado em condições de guerra, em acampamento militar com muita gente e pouca higiene. Conseguimos rastrear o COVID-19 para o comércio de animais (provavelmente morcegos) na China, em um ambiente onde o comércio de animais ocorria de forma pouco higiênica.

Deve se haver uma vigilância ainda maior com relação à condições de criação e comercialização de animais, testando constantemente os animais para ver se não há possibilidade de contágio por outras doenças em humanos. Tal aprendizado já é posto em prática na agropecuária, onde rebanhos e criações gigantescas (como de galinhas, porcos e gado) são monitorados constantemente, frutos dos conhecimentos aprendidos das outras pandemias e doenças (como gripe aviária, MERS e sindrome da vaca louca), porém, com a atual pandemia, vemos que temos de aumentar ainda mais nossos esforços.

Aprendemos, com a gripe espanhola, que a censura com relação à doença é algo ruim, pois deixa as pessoas sem ter condições de agir. Negar a gravidade da doença (como o Brasil fez no início da gripe espanhola) também é algo que trouxe consequências negativas, pois agravou o contágio e aumentou o número de mortes.

Infelizmente ainda há gente que nega a gravidade da pandemia, e nega a ciência e suas contribuições para o conhecimento humano, fundamentais hoje em dia para combater tal pandemia, e com isto, estamos vendo diversas ações que geram desrespeito às ações de isolamento, o que leva à mais pessoas contagiadas e mortes.

4- Ações de prevenção:

A prevenção à doença deve ser priorizada, visto que ainda não há vacinas. As principais medidas de prevenção são:

-isolamento social: para diminuir a velocidade de contágio, o que evita o sistema de saúde colapsar.

-medidas de higienização: higienizar mãos, uso de máscaras, evitar aglomerações.

As ações de isolamento são mui importantes, pois, como a COVID-19 não tem vacina, o isolamento diminui a velocidade de contágio, o que contribui para a não ocupação de todos os leitos e vagas de hospitais de uma vez. Se todos se contaminarem, uma grande parte dos leitos podem ser ocupadas de uma vez, o que pode levar a exclusão e morte de pacientes por falta de leito.

 
Respirador, equipamento que ajuda o paciente em estado grave de Covid-19 a respirar. Infelizmente não se dispõe de tantos respiradores quanto o necessário, logo, diminuir a velocidade de contágio é importante, para evitar que haja a necessidade de vários respiradores ao mesmo tempo e, consequentemente, mortes.

5 – Dicas de vídeos sobre pandemias e COVID-19 no Youtube.

As dicas de vídeo à seguir são de cientistas e divulgadores científicos certificados pela Science Vlogs Brasil, ou seja, as informações são seguras e veiculadas por cientistas:

Nerdologia – Covid-19:

 
Video elaborado pelo doutor em microbiologia Átila Imarino, para exlicar o atual vírus.

Nerdologia – Pandemias:

 
Vídeo feito pelo doutor em microbiologia Átila Imarino, para explicar as pandemias.

Peste Negra – Canal do Slow:

 
De forma bem humorada, o divulgador científico Estevão Slow fala sobre a pandemia que houve durante a idade média.

A Epidemia Secreta – Meteoro Brasil:

 
Neste vídeo, o jornalista Alvaro Borba e a doutora Ana Lesnovski nos contam como a não divulgação de dados sobre uma epidemia é mui negativo, e trazem o exemplo brasileiro, da década de 1970, com uma epidemia de meningite que assolou o país.

Átila Imarino – Por que é importante ficar em casa:

 
Vídeo feito pelo doutor em microbiologia Átila Imarino para explicar como o isolamento é importante.

Para maiores informações sobre a COVID-19:
https://www.saopaulo.sp.gov.br/coronavirus/

Você também pode gostar...

Deixe um comentário