História

Astronomia, Geografia e História: como o olhar para o céu é importante para a humanidade!

Todos o povos, desde o início das civilizações, olharam para o céu e fizeram considerações sobre os pontos e fenômenos constantes. Nossas atuais medidas de tempo (dia, hora, ano), são frutos destas observações, mas, no começo, haviam outras explicações: os mitos.

Mito é toda explicação simbólica que as diversas culturas criaram sobre fenômenos, geralmente se associando à religião. Ou seja, explica-se algo com uma crença no sobrenatural ou deuses, como, por exemplo, os egípcios e gregos faziam, com deuses associados ao Sol, Lua, planetas, eclipses (os maias faziam sacrifícios humanos durante o eclipse solar, por entenderem que o eclipse trazia temor e grande perigo, afinal, sem o sol, não poderiam desenvolver boa parte de suas atividades, por isso, faziam os sacrifícios, com o intuito de alimentar o sol e evitar sua perda).

Mesmo com as explicações míticas, diversos pensadores insistiram em observar os astros, medir suas aparições e rotas de acordo com épocas do ano e criaram ferramentas para observar. Os maias tinham diversas edificações para poder acompanhar a trajetória do planeta Vênus, medir o tempo da lua em suas fases. Outros povos como os egípcios criaram pirâmides com medidas que se alinham com a estrela polar.

Entender a rotina dos astros permitiu calcular o tempo melhor, o que ajudou a agricultura, afinal, diversas plantas alimentícias tem uma época específica para se plantar e colher, e, medindo a quantidade de tempo que se leva para cada planta produzir, os povos puderam se organizar melhor para sua produção. Até hoje os agricultores usam medidas de tempo e calendário lunares (usado pela biodinâmica) e solares para se organizar em suas produções. Nas duas imagens abaixo temos um exemplo do uso do calendário lunar para entender como é o ciclo das plantas e épocas para plantar:

Fonte das imagens: https://jardimdomundo.com/plantar-pelas-fases-da-lua/

Foi na Grécia antiga que começaram as medições com maior precisão do tempo, dividindo o ano em 365 dias e 6 horas, bem como um sistema onde os corpos celestes, inclusive a terra, giram entorno de se eixo, porém, este modelo tinha a terra como centro e não o sol, porém, entre o século III antes de Crísto e o período do domínio macedônico (338a.c.-326a.c.) diversos filósofos e astrônomos propuseram um modelo heliocêntrico (onde o sol é o centro, e não a terra). O conhecimento gerado no período helenista foi compilado pelo pensador Ptolomeu, e sobreviveu no mundo árabe com o nome de Almagesto (Grande Síntese), o que ajudou nas navegações durante o período do renascimento (entre os séculos 14 e 16).

O planeta é um geoide redondo:

Desde os tempos da Grécia antiga já se sabia que a terra não é plana. Erastótenes (276 a.C.-194 a.C), ao observar a sombra postes em diferentes cidades no mesmo horário, viu que elas tinham um tamanho diferente. Ao medir a diferença de ângulo das sombras dos obeliscos entre duas cidades do Egíto, no mesmo dia e hora, porém, à distância de aproximadamente 800km. Com esse dado, ele conseguiu calcular que a terra não é plana, e chegou ao seu raio aproximado 40 mil quilômetros. No Equador, o valor real é 40 075 quilômetros.

Porém, esse conhecimento só se provou útil e passível de comprovação durante a era das grandes navegações. Cristóvão Colombo acreditava que a terra era redonda, e, sua base era as observações dos navios ao longe, no mar, que iam diminuindo de tamanho com a distância, porém, a primeira parte que sumia era aparte de baixo, e, por ultimo, os mastros, ou seja, eles estavam percorrendo a curvatura da terra.

Pesava contra Colombo a crença medieval de que a terra era chata, e isso foi, em parte, impulsionado pela Igreja Católica, que buscava impedir investigações sobre o mundo e a natureza sob a alegação de que quem fazia isso estava cometendo uma afronta aos mistérios de Deus. Vencida as resistências, Colombo conseguiu financiar uma navegação, com o objetivo de encontrar uma rota mais rápida para as Índias, e aportou em nosso continente.

Sabendo que a terra é redonda (não uma esfera perfeita, visto que a rotação faz com que ela se achate um pouco nos polos), é possível elaborar mapas mais precisos, com distâncias e pontos de referência astronômicos, coisa que, entre os séculos 14 e 19 sofreram uma grande evolução.
No vídeo abaixo, o astrônomo e divulgador científico Carl Sagan explica a descoberta da curvatura da terra:

Ferramentas para se guiar usando os astros:

Sem a astronomia a geografia não poderia se desenvolver! Todos os povos, ao observarem os fenômenos dos astros, puderam aferir referências para poder se guiar no espaço do planeta, seja pela terra ou mar. Sabendo onde o sol nasce e se põe, podemos aferir as direções norte e sul, e, durante a noite, podemos usar as constelações para saber a direção em que vamos, e até mesmo saber a posição em que esteamos no planeta, afinal, alguns astros não são visíveis do hemisfério sul, e vice-versa.

Com a expansão do comércio entre europeus e árabes durante o Renascentismo, houve uma expansão de saber na Europa do como retratar o mundo e se localizar nele. Essa expansão de saberes atendia os interesses dos negociantes, que percebiam como tal era lucrativo. Neste período, diversas traduções das obras gregas (como a de Ptolomeu, Aristóteles, etc), foram feitas e diversas escolas foram fundadas, com o objetivo de melhorar tanto os mapas (que seguiam, na idade média, o esquema de Mapa T, como na figura abaixo) quanto os instrumentos que mediam as posições dos astros celestes, como sextantes:

Mapa em T da idade média, que buscava representar o mundo com os referenciais cristãos. Acima, a Ásia, abaixo, do lado esquerdo, Europa, e, do lado direito, África. Este mapa não tem direções claras, bem como não tem precisão, logo, não servia para os propósitos dos mercadores e burgueses, de poderem se orientar no mundo. Aí a astronomia colaborou, fornecendo referências para direções e a matemática ajudou a criar mapas (cartografia) mais precisos com a realidade.

 

Sextante de metal. O instrumento era armado em uma estrutura de madeira, com uma escala em metal. Abaixo dele fica uma esfera. Era operado por 2 pessoas, e servia para medir os ângulos entre os corpos celestes.

 

Sextante de 1810, criado pelo oficial da marinha Campbell e aperfeiçoado pelo vidreiro norte-americano Tomaz Godfrey. Permitia melhor navegação no oceano ao medir com maior precisão os astros, conseguindo aferir a posição do observador no globo.

Ferramentas como sextantes, bem como o conhecimento astronômico foram muito úteis até mesmo para a aviação. Diverso aviões ainda hoje voam sem instrumentos sofisticados como o Gps (global positioning system – Sistema de posicionamento global), logo, um piloto tem de saber, ainda que de forma mínima, astronomia.

Século 20 e astronomia – diversas revoluções para a humanidade:

O século 20 teve um salto de conhecimento nunca antes experimentado, e, claro que isto iria se refletir com o desenvolvimento de todas as áreas do saber humano. Na física, Einstein revoluciona trabalhos de gravitação universal, tempo e espaço, bem como de físca atômica (que resultaria na bomba de fissão nuclear que explodiu Hiroshima e Nagazaki). Na Química, desde a primeira guerra mundial seus saberes foram aplicados em novos armamentos e explosivos, porém, na segunda guerra mundial, com a invenção das bombas-foguete V-2 (que saiam da atmosfera, aproveitavam a curvatura da terra e caiam em alvos distantes), que se lançava um passo extra para a astronomia, no caso, a possibilidade de sair do planeta e compreender melhor os astros, indo até eles, sejam com pessoas ou equipamentos (sondas).

Foguete V-2 sendo lançado da Alemanha para atacar a Inglaterra durante a 2ª guerra mundial.

 

Esquema de funcionamento do foguete V-2.

O criador dos foguetes V-2, Werner von Braun, após a 2ª guerra, foi viver e trabalhar nos Estados Unidos graças a Operação Paper Clip (onde os Estados Unidos recrutaram pesquisadores da Alemaha nazista para se apropriarem de seus saberes), o que permitiu o desenvolvimento da Nasa (agência espacial americana). Os foguetes que enviaram o ser humano à lua diversas vezes são, basicamente, bombas V-2 gigantescas.

Saturno V lançando a missão Apolo 11, que levou o ser humano à Lua.

Com a Guerra Fria (disputa entre os Estados Unidos e União Soviética), o desenvolvimento dos foguetes permitiu o laçamento de satélites e sondas, o que permitiu melhorar nossa comunicação, aprofundando a globalização, com a transmissão de transações e informações numa velocidade nunca vista antes. Ou seja, diversas tecnologias que temos hoje, que facilitam nossas vidas, bem como o mundo atual, só podem ser compreendidos à luz da história, no caso, como o desenvolvimento de uma área (astronomia) ajudou outras (como a geografia) e como possibilitou nosso atual mundo globalizado.

Do lado da União Soviética houveram diversos avanços, como o lançamento do primeiro satélite artificial, o Sputnik, bem como a primeira missão de um ser humano no espaço, o cosmonauta Iuri Gagarin.

Sputnik I sendo preparado para ser lançado ao espaço. Este foi o primeiro satélite artificial que o ser humano criou.

 

Iuri Gagarin, o primeiro ser humano à ir ao espaço.

Em 20 de julho de 1969 a missão Apolo alunissou (aterrizou na lua), levando o ser humano, pela primeira vez, a outro corpo que não a Terra. A partir deste momento, se propagandeou a suposta vantagem norte americana na chamada corrida espacial. Já a União Soviética optou por enviar sondas, por considerar mais segura que o envio de seres humanos. É polêmico falar quem venceu a corrida espacial, visto que ambos os lados desenvolveram tecnologias espaciais ainda hoje usadas. Em entrevista a BBC Brasil, o ex membro da União Soviética, o cosmonauta (se fala cosmonauta para aqueles que foram treinados para ir a espaço pela Rússia e União Soviética) Georgei Grechko, havia a prioridade de produzir alimentos e habitações, e não levar o ser humano à lua. Já os Estados Unidos tinham o objetivo de superarem os soviéticos a qualquer custo.
Abaixo, vídeo sobre a ida do ser humano à lua:

 

Outro fato interessante foi o surgimento das estações espaciais, onde foram conduzidos diversos experimentos. A primeira estação espacial foi a soviética Salyut1, porém, com o tempo, outras foram desenvolvidas como a Skylab (dos Eua) e Mir (Urss):

Representação artística da Salyut1, feita pela Urss.

 

Representação da estação Skylab, a primeira estação espacial dos Eua.

 

Estação espacial Mir (Urss)

Atualmente temos, em nossa órbita, a ISS (Estação Espacial Internacional), feita com parceria de vários países do globo. Lá se desenvolvem testes e experimentos científicos de diversos países:

Estação Espacial Internacional (Iss), atualmente na órbita da Terra. Esta imagem foi feita durante uma aproximação para acoplar nela.

Além das estações espaciais, ainda temos os telescópios espaciais, que nos permitiram saber ainda mais sobre o universo, como o famoso Hubble:

Telescópio Hubble, na órbita de nosso planeta.

 

Nebulosa Cabeça de Cavalo. Foto tirada pelo telescópio Hubble, na constelação de Órion.

Com o uso de sondas e telescópios espaciais, pudemos compreender melhor a história de nosso próprio planeta e sistema solar, observando o nascimento e fim de várias estrelas pudemos entender que nosso sol é uma estrela pequena, de meia vida, com aproximadamente 4,5 bilhões de anos, e, seu fim será como uma gigante vermelha, daqui mais 6,5 bilhões de anos, o que aniquilará o sistema solar interno.

Também aprendemos que toda a matéria de nossa galáxia orbita um gigantesco buraco negro, o Sagitáro A*, no centro da Via Láctea:

Foto feita em espectro não visível (infravermelho e raio x), com inúmeras estrelas no centro da Via Láctea. A seta indica onde está o super buraco negro Sagitário A*, no centro da galáxia.

Com os avanços da astronomia, pudemos, inclusive, gerar uma imagem de um buraco negro e comprovar que as equações de Albert Einstein sobre a Teoria da Relatividade estavam corretas:

Século 21 e o espaço – pensado o futuro:

Como objetivos para o futuro, já se pensa na colonização da lua (volta do ser humano a lua até 2030). Há , também, o plano de colonizar o planeta Marte, bem como o turismo espacial (que já começou na década de 2000, com o envio de um turista à Iss por 20 milhões de dólares).

Diversos problemas de ordem ética se levantam com isso, afinal, há um tratado internacional valendo desde a década de 1960, sobre o uso coletivo do espaço para a humanidade. Também há o problemas relacionados a saúde dos astronautas por causa da microgravidade e radiação cósmica. Os vídeos abaixo trazem algumas reflexões sobre tal:

E se não estivermos sós no universo?

Este talvez seja o ponto mais intrigante de pensar. Quais as consequências à economia, cultura, religiões, ou seja, o que mudaria na nossa vida?

Stephen Halking, grande astrofísico do século 20, entendia que temos de ser bons ouvintes antes de falar com outros seres no universo. A ideia dele é olhar a história, o como um povo e cultura mais avançados belicamente (os Europeus), ao entrarem em contato com outros povos (por exemplo, os indígenas americanos) resultou em um grande impacto que quase extinguiu por completo tais povos. Então, o raciocínio é: o que acontecerá conosco se uma civilização alienígena aparecer, e for mais desenvolvida, bilhões de anos à nossa frente? Tal ideia de cautela é compartilhada pelo astrônomo Neil deGrasse Tyson, que entende que eles (os possíveis seres extraterrestres) podem não ter o apreço por nós, tal como não temos por insetos, por exemplo.

A história nos mostra que as consequências podem ser desastrosas! Tanto que, dentro da astronomia existem iniciativas como o Seti, que é uma série de rádio telescópios com o objetivo de captar e analisar sinais de rádio, com o intuito de achar comunicações extraterrestres e aprender sobre eles.

No vídeo abaixo, um astrônomo do Seti explica como o projeto funciona (tem de acionar a legenda no vídeo):

Antenas do Projeto Seti, com o objetivo de encontrar vida alienígena inteligente.

Segundo Hawking, já estamos sendo descuidados, afinal, enviamos sondas para o espaço interestelar como a Pionner10, que tem, em seu interior, informações sobre nós e coordenadas de como chegarem :

Pode parecer alarmista, mas, estudar como funciona os fenômenos do espaço são importantes para antever problemas de diversas ordens. Atualmente, estamos vivendo numa sociedade globalizada e extremamente dependente de tecnologias digitais/eletrônicas. Porém, grandes eventos como tempestades solares, por exemplo, podem gerar emissões de partículas que podem afetar nosso sistema elétrico e de comunicação.

Representação do meteoro que impactou a 66 milhões de anos antes de Cristo.

Outro fenômeno catastrófico recente foi a explosão de um meteorito (uma pequena rocha do espaço) nos céus na Rússia, causando muitos estragos e vítimas por causa da onde de impacto. Um evento desses, só que com uma amplitude muito maior, dizimou a vida na terra a bilhões de anos atrás. Abaixo, 2 vídeos sobre estes eventos:

Olhando estes eventos, podemos pensar  em medidas de proteção para nossa própria espécie. Atualmente rastreamos meteoros com potencial perigoso, e já se pensam planos de como prevenir catástrofes no futuro.

Considerações finais:

A astronomia é um campo de saber que, por mais que não pareça ter uma aplicação prática, ajudou a humanidade se desenvolver, seja na agricultura, contagem de tempo, orientação/navegação, quanto ainda é elemento de desenvolvimento da humanidade e diversas áreas como física, engenharia aeroespacial, química, etc.
A possibilidade de colonização de outros corpos celestes, em nossa atual fase de desenvolvimento é visto só como questão de tempo, e levanta problemas éticos não resolvidos. Também há relevância de estudo em virtude da possibilidade de vida extraterrestre. Por fim, a própria possibilidade de colonizar outros astros é interessante, visto a possibilidade de findar os recursos terrestre.
Quado visitamos a história, vemos que novos saberes e novas tecnologias tiveram um impacto enorme tanto na nossa compreensão de mundo quanto nas possibilidades de vida, de negócio, da sociabilidade e do como modificamo o mundo pra viver. Podemos antever que o futuro será além de nosso planeta. Ao que tudo indica, nos tornaremos um espécie interplanetária. É uma questão de tempo, e, já estamos dando nossos passos a infinito. Agora, resta nos perguntar, se conseguiremos usar todo esse aprendizado para, também, cuidar de nossa casa original.

Para saber mais no Youtube:

Canal SpaceToday, feito pelo geólogo e astrônomo Sérgio Saccani. Traz diariamente notícias sobre astronomia, astrofísica e geoastronomia: https://www.youtube.com/channel/UC_Fk7hHbl7vv_7K8tYqJd5A

Canal do Schwarza, feito pelo astrônomo e divulgador científico Schwarza e o professor da Usp Ramachrisna Teixeira. Seu objetivo é trazer notícias sobre tecnologia e astronomia de forma rápida e humorada: https://www.youtube.com/user/poligonautas

 

Programas de astronomia para computadores:

Kstars: disponível para diversas plataformas (linux, windows e mac), é um simulador do céu noturno bem complexo e completo. Para saber mais: https://kde.org/applications/pt/education/org.kde.kstars

Stellarium: disponível para windows, linux e mac, é um programa de astronomia que tem por objetivo mostrar as constelações e objetos estelares de forma bela e agradável. Não é tão completo como o Kstars, mas, tem simplicidade e riqueza de detalhes. Uma vantagem deste programa é seu modo noturno, ou seja, a tela fica com tons de vermelho e preto, e podes levar o computado ao campo, para olhar o céu e comparar com o programa, sem ter problemas com excesso de luz: https://stellarium.org/pt/

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