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Aula Aberta do CEEJA (II): Crônicas, por Daniel de Souza!

Cony: o autor de todos os gêneros!

O Projeto Bem-te-vis, do CEEJA de Marília, apresenta hoje uma aula aberta de literatura com o convidado especial: Professor Daniel de Souza – professor de literatura e de língua inglesa.

Clique no link abaixo para acessar a aula, que ficará gravada no canal do youtube do blog do CEEJA!

A Crônica e Carlos Heitor Cony

Segundo Ana Paula Lopes da Silva, pesquisadora da Universidade Federal de Viçosa (UFV), a crônica “é o gênero jornalístico que mais oferece liberdade ao autor, tanto de estilo como de expressão. Por sua curta extensão textual e forte presença autoral, se torna um excelente objeto de pesquisa para a análise semântica do discurso que busca investigar como o autor estabelece a relação entre as sequências de sentenças do discurso, seu significado em uma coerência local e global.” E para Jorge de Sá,  o escritor , cronista e jornalista Carlos Heitor Cony “aproveita a leveza da crônica para buscar a leveza do espírito, na imagem do amor eternamente retornando ao homem e lhe devolvendo o sentido pleno da humanidade”.

A vida de Cony

Carlos Heitor Cony nasceu no dia 14 de março de 1926, na cidade do Rio de Janeiro e passou a infância em Lins Vasconcelos. Foi jornalista e escritor brasileiro, eleito membro da Academia Brasileira de Letras, instituição cujo objetivo é o cultivo da língua e da literatura. Cony recebeu muitos prêmios durante sua vida, dentre eles:

Prêmio Manuel Antônio de Almeida, com os romances A Verdade de Cada Dia, em 1957, e Tijolo de Segurança, em 1958. Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto da obra, em 1996. Prêmio Jabuti 2000, concedido ao Romance sem Palavras. Grande Prêmio da Cidade do Rio de janeiro – 2014 – Academia Carioca de Letras.

As principais obras

Quase memória, A Casa do Poeta Trágico, O Ventre, Informação ao Crucificado, Romance sem palavras e Pilatos, onde nesta última o autor revelou seu favoritismo, acrescentando ainda que: “É a minha visão do mundo, e acho que vou morrer com ela”. O livro, originalmente publicado em 1973, fazia sátira da situação política e social do Brasil sob o regime militar.

As crônicas de Cony

A casa mal-assombrada

Por: CARLOS HEITOR CONY

Rio de Janeiro – Era no fim de uma rua que não levava a lugar nenhum. A casa tinha fama de ser mal-assombrada, e a rua nem tinha nome. Diziam que ali houvera uma fazenda de café cujos escravos mataram todos os senhores da casa-grande e depois se mataram -antes que fossem mortos pelas forças da lei.
Lenda ou realidade, o fato é que nenhum menino se atrevia a passar por ali. Na infância mais profunda, todos os meus pesadelos tinham locação única e barata: era ali mesmo que os fantasmas da noite me esperavam para fazer das suas sem deixar que eu fizesse das minhas, que se resumiriam em fugir -fuga impossível nas garras do sonho.
Até que um dia, vindo de uma aula de catecismo, decidi cortar caminho e fui dar num atalho que não conhecia. Quis voltar, mas a curiosidade de explorar o mundo me levou mais além. De repente, com pavor no peito e tremor nas pernas, estava diante da casa mal-assombrada.
Olhando bem, era uma casa igual às outras, tinha mangueiras ao lado e uma menina de franjinha na única janela aberta. Ela parecia admirada de ver alguém chegar ali.
Fiquei parado, um pouco pelo medo, um pouco pelo encantamento. Apesar da franjinha, a menina era tão bonita como os anjinhos que havia na igreja de Nossa Senhora da Guia.
Perguntou se eu queria alguma coisa. Não, não queria nada, embora querendo tudo -tal como hoje, tantos anos depois.
Quis saber o meu nome, onde eu morava, o que fazia ali. Respondi com honestidade, a mesma com a qual, mais tarde, responderia aos formulários do Imposto de Renda: a verdade possível.
Depois do interrogatório, veio o convite mais inesperado que poderia receber: “Quer ser meu namorado?”. Disse que sim. Prometi voltar no dia seguinte, embora sabendo que nunca mais botaria os pés naquele chão assombrado.
Creio que foi ali, também, que dobrei a esquina errada na vida. Nunca mais me pediram a mesma coisa. Sim, eu devia ter voltado.


O suor e a lágrima

Por: CARLOS HEITOR CONY

Fazia calor no Rio, 40 graus e qualquer coisa, quase 41. No dia seguinte, os jornais diriam que fora o mais quente deste verão que inaugura o século e o milênio. Cheguei ao Santos Dumont, o vôo estava atrasado, decidi engraxar os sapatos. Pelo menos aqui no Rio, são raros esses engraxates, só existem nos aeroportos e em poucos lugares avulsos.
Sentei-me naquela espécie de cadeira canônica, de coro de abadia pobre, que também pode parecer o trono de um rei desolado de um reino desolante.
O engraxate era gordo e estava com calor — o que me pareceu óbvio. Elogiou meus sapatos, cromo italiano, fabricante ilustre, os Rosseti. Uso-o pouco, em parte para poupá-lo, em parte porque quando posso estou sempre de tênis.
Ofereceu-me o jornal que eu já havia lido e começou seu ofício. Meio careca, o suor encharcou-lhe a testa e a calva. Pegou aquele paninho que dá brilho final nos sapatos e com ele enxugou o próprio suor, que era abundante.
Com o mesmo pano, executou com maestria aqueles movimentos rápidos em torno da biqueira, mas a todo instante o usava para enxugar-se — caso contrário, o suor inundaria o meu cromo italiano.
E foi assim que a testa e a calva do valente filho do povo ficaram manchadas de graxa e o meu sapato adquiriu um brilho de espelho à custa do suor alheio. Nunca tive sapatos tão brilhantes, tão dignamente suados.
Na hora de pagar, alegando não ter nota menor, deixei-lhe um troco generoso. Ele me olhou espantado, retribuiu a gorjeta me desejando em dobro tudo o que eu viesse a precisar nos restos dos meus dias.
Saí daquela cadeira com um baita sentimento de culpa. Que diabo, meus sapatos não estavam tão sujos assim, por míseros tostões, fizera um filho do povo suar para ganhar seu pão. Olhei meus sapatos e tive vergonha daquele brilho humano, salgado como lágrima.


O menino das meias vermelhas

Por: CARLOS HEITOR CONY

Todos os dias, ele ia para o colégio com meias vermelhas.

Era um garoto triste, procurava estudar muito mas na hora do recreio ficava afastado dos colegas, como se estivesse procurando alguma coisa. Os outros guris zombavam dele, implicavam com as meias vermelhas que ele usava.

Um dia, perguntaram porque o menino das meias vermelhas só usava meias vermelhas.

Ele contou com simplicidade:

– No ano passado, quando fiz aniversário, minha mãe me levou ao circo. Botou em mim essas meias vermelhas. Eu reclamei, comecei a chorar, disse que todo mundo ia zombar de mim por causa das meias vermelhas. Mas ela disse que se me perdesse, bastaria olhar para o chão e quando visse um menino de meias vermelhas saberia que o filho era dela.

Os garotos retrucaram:

– Você não está num circo! Porque não tira essas meias vermelhas e joga fora?

Mas o menino das meias vermelhas explicou:

– É que a minha mãe abandonou a nossa casa e foi embora. Por isso eu continuo usando essas meias vermelhas. Quando ela passar por mim vai me encontrar e me levará com ela.

 

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1 comentário

  1. ceeja-admin

    Parabéns! “ler te leva a horizontes inimagináveis “, dizia minha saudosa Mãe ávida leitora . Escutando um pessoa com sua calma , suavidade a falar sobre autores e suas obras, não tem como não querer saber o final das estórias, hoje crônicas; muito triste a do “O menino das meias vermelhas”, me emocionei.

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