Escola

O que aprendemos (e o que não) com a História

CONSELHOS AO POVO

Essas recomendações soam familiares? Pois bem, a semelhança não é mera coincidência.

Dawisson Belém Lopes on Twitter: "Recomendações para a gripe ...

Há 102 anos, o Brasil e o mundo enfrentavam o vírus Influenza, responsável pela infecção que ficou conhecida como “gripe espanhola”, que, segundo estimativas, causou a  contaminação de 500 milhões de pessoas e a morte de 50 milhões em todo o mundo.  No Brasil, de acordo com os registros da época, foram cerca de 35 mil mortes. A epidemia é conhecida como gripe espanhola porque a imprensa da Espanha foi uma das primeiras a informar sobre a doença na Europa.

Mesmo em contextos completamente diferentes, segundo o professor de História, Frederico Tomé, ainda assim é possível comparar os momentos políticos e sociais que estamos vivendo com o de mais de 100 anos atrás. Na pandemia do século XXI, as mortes também são causadas por um vírus (coronavírus) e o número de vítimas também supera a casa dos milhões.

Segundo alguns historiadores, há características muito semelhantes entre os dois períodos e entre as duas pandemias apesar da distância temporal. Além dos acertos (isolamento social, uso obrigatório de máscaras faciais), muitos erros cometidos por algumas autoridades no começo do século passado, agora estão sendo repetidos. As duas doenças, aqui como na Europa, inicialmente não foram levadas a sério e tratadas com descaso por autoridades e políticos. E mais. Assim como hoje muitos apontam para a China como sendo a responsável pela criação do novo coronavírus em laboratório, em 1918 a gripe espanhola teria sido uma criação bacteriológica dos alemães, que haviam perdido a guerra.

Durante a Primeira Guerra Mundial (1914 -1918), em meados de agosto e início de setembro de 1918, algumas pequenas notícias sobre um estranho mal começaram a aparecer nos jornais da capital federal (na época, o Rio de Janeiro) sem, contudo, despertar grande atenção das autoridades públicas e da população em geral. Desde o mês de maio, a Europa e a África eram assoladas por uma doença epidêmica, cujo diagnóstico era incerto. Somente no final de junho foi confirmada a informação de que se tratava de um vírus causador da gripe e que já teria se alastrado por vários pontos da Europa. No Rio de Janeiro as notícias sobre a doença eram ignoradas ou tratadas em tom de piada, demonstrando um estranho sentimento de imunidade face à doença.

Segundo o professor já citado anteriormente, a demora para tomar providências e a negação ao potencial do vírus, inclusive por parte de Venceslau Brás, presidente em exercício naquele momento, acabou sendo muito nociva para o combate da pandemia, prejudicando ações posteriores e tirando muitas vidas, inclusive a do presidente Rodrigues Alves, que havia sido eleito, mas acabou morrendo antes de tomar posse. É o que também podemos ver no atual momento, ou seja, a negação inicial da pandemia, “uma gripezinha”, a negação da ciência, as tentativas diárias para acabar com o isolamento social, a idéia de que a doença só atingiria idosos e que o isolamento apenas dessas pessoas já seria suficiente para controlar o avanço do vírus.

Outra coincidência que pode ser apontada é em relação à recomendação de remédios e substâncias que não tiveram sua eficácia e segurança comprovadas. Durante a pandemia de gripe espanhola, a medicina não havia conseguido criar nenhuma vacina e medicamento específico contra a doença. Em decorrência disso, os médicos utilizaram diversos medicamentos, variando de remédios já conhecidos a misturas envolvendo óleos e ervas, para tentar conter a pandemia. Houve também uma ascensão das práticas populares de cura.

Aqui no Brasil, a mistura de cachaça, mel e limão passou a ser considerada como solução milagrosa para o problema. Há quem defenda que a famosa Caipirinha nasceu disso. Na pandemia de Covid-19, a inexistência de vacina e medicamentos para tratar a doença infecciosa, também fez surgir especulações em torno de remédios para combater a doença. Porém, apesar de alguns desses medicamentos serem veementemente propagandeados, faltam evidências conclusivas sobre a eficácia dos mesmos frente à moléstia, além de causarem efeitos colaterais gravíssimos e letais.

 Atualmente, contamos com a existência do Ministério da Saúde, embora, já há algum tempo sem um respectivo Ministro que coordene ações de combate ao coranavírus. Em 1918, a Diretoria-Geral de Saúde Pública (criada em 1897) era o único órgão da época relacionado à saúde. Carlos Seidl, o então diretor do órgão, insistia que a gripe era benigna e julgou desnecessário tomar qualquer medida preventiva, mesmo com a quantidade de óbitos subindo a cada dia em outros países. Após a situação se tornar crítica, a população e os jornais passaram a reivindicar medidas mais duras. Em 11 de outubro de 1918, no jornal Rio, lia-se a seguinte publicação:

“O diretor da Saúde Pública, está evidentemente, abusando da paciência da população. O governo está na obrigação de fazer sentir ao incompetente administrador, que mais de um milhão de vidas não podem continuar assim à mercê do seu formidável desleixo, da sua extraordinária inércia e da sua incomensurável inaptidão administrativa. (…)” A resposta de Carlos Seidl foi um pedido de censura da mídia, pois acreditava que ela causava pânico no povo e ameaçava a preservação da ordem pública. Os jornais foram proibidos de divulgar os números de mortos e infectados. Seidl acabou sendo demitido e substituído pelo sanitarista Carlos Chagas, que alterou todo o discurso sobre a doença.

Não podemos deixar de considerar também outros aspectos que continuam a se repetir, tais como: deficiência nos serviços de saúde, insalubridade e desigualdade social, problemas acentuados durante uma pandemia e que agravam ainda mais a situação de vulnerabilidade de alguns grupos.

Enquanto as pesquisas científicas continuam a buscar uma vacina e medicamentos para combater o coronavírus, a melhor forma de nos proteger é ficar em casa! Porém, esse “ficar em casa” deve significar que as políticas públicas precisam chegar a todos os brasileiros.

Longe de dizer que a História se repete, mas ao refletir sobre como as sociedades enfrentaram outras pandemias, podemos aprender com seus erros, e identificar a necessidade de ações que melhorem o bem estar de toda a população para que fenômenos como este não voltem a ameaçar de forma tão fatal a humanidade.

Assista ao vídeo da antropóloga e historiadora Lilia Schwarcz, que considera o momento atual como o marco da virada do século XX para o século XXI.

Fontes:

https://www1.folha.uol.com.br/ciencia/2020/06/o-que-aprendemos-e-o-que-nao-com-a-gripe-espanhola-de-1918.shtml

https://jornaldebrasilia.com.br/brasil/gripe-espanhola-e-coronavirus-historiadores-mapeiam-semelhancas-de-como-brasil-lidou-com-pandemias/

https://www.atibaiahoje.com.br/saude/semelhancas-entre-a-gripe-espanhola-e-o-coronavirus-no-brasil

https://odia.ig.com.br/mundo-e-ciencia/coronavirus/2020/06/5936720-nao-aprendemos-a-licao–mundo-comete-os-mesmos-erros-da-gripe-espanhola-com-a-covid-19.html

https://www.sanarmed.com/pandemias-na-historia-comparando-com-a-covid-19

https://tab.uol.com.br/noticias/redacao/2020/05/12/covid-19-como-historiadores-vao-contar-o-que-foi-a-pandemia.htm?cmpid=copiaecola

https://www.ufrgs.br/coronavirus/base/uma-comparacao-entre-a-pandemia-de-gripe-espanhola-e-a-pandemia-de-coronavirus/

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2 comentários

  1. João Augusto says:

    Palavras ditas com sabedoria, momento de reflexão e não desespero, tudo vai passar mais uma vez, pois se tivemos que passar por isso também vamos superar, época também em que o homem mostra sua capacidade de crescerem como seres humanos e mostrarem mais empatia pelo seu próximo que passa nesses momentos passam por mais dificuldades. Parabéns.

    1. CEEJA Marilia

      João Augusto, agradecemos pelo seu comentário sensato e motivador! Vamos superar tudo isso! Fique à vontade para comentar nas outras postagens também! Paz e bem! Equipe CEEJA.

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