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Aula Aberta do CEEJA estréia nesta quarta-feira, dia 15 de julho, às 20h, com aula de literatura pelo youtube!

Projeto Bem-te-vis, do CEEJA, apresenta uma aula de literatura com o convidado especial: Professor Daniel de Souza – formado em Letras pela UNESP, câmpus de Assis-SP!

Link para assistir a aula no Canal do Blog do CEEJA segue abaixo:

LITERATURA BRASILEIRA

Machado de Assis deixa aberto o não dito pelo o que é dito mesclando assim passado e presente

Campanha recria a imagem de Machado de Assis negro(Joaquim Maria Machado de Assis), jornalista, contista, cronista, romancista, poeta e teatrólogo, nasceu no Rio de Janeiro, em 21 de junho de 1839, e faleceu também no Rio de Janeiro, em 29 de setembro de 1908. É o fundador da cadeira nº. 23 da Academia Brasileira de Letras. Ocupou por mais de dez anos a presidência da Academia, que passou a ser chamada também de Casa de Machado de Assis. Filho do pintor e dourador Francisco José de Assis e da açoriana Maria Leopoldina Machado de Assis. Foi criado no Morro do Livramento, tendo perdido a mãe muito cedo. Sem meios para cursos regulares, estudou como pode, em 1854, com 15 anos incompletos, publicou o primeiro trabalho literário, o soneto “À Ilma. Sra. D.P.J.A.”, no “Periódico dos Pobres” datado de 3 de outubro de 1854. Em 1856, entrou para a Imprensa Nacional, como aprendiz de tipógrafo. Em 1858, era revisor e colaborador no Correio Mercantile, em 1860, a convite de Quintino Bocaiúva, passou a pertencer à redação do Diário do Rio de Janeiro.

Conto: Missa do Galo

Em 1899, quando Páginas Recolhidas é lançado, José Veríssimo (um dos fundadores da ABL) dedica longa resenha ao livro. Diz ele: “toda a obra do. Sr. Machado de Assis. Somente humana sem piedade ou sequer simpatia, ou com a piedade ou simpatia disfarçada, ciosamente ocultas, na ironia, no “humor”, sob que a vela e resguarda o poeta”. Pelos dizeres do próprio autor Machado de Assis:

“Eu gosto de catar o mínimo e o escondido. Onde ninguém mete o nariz,
aí entra o meu, com a curiosidade estreita e aguda que descobre o encobert
o.”

“Nunca pude entender a conversação que tive com uma senhora, há muitos anos, contava eu dezessete, ela trinta.” Assim inicia-se o conto “Missa do Galo”, de Machado de Assis, publicado pela primeira vez na revista A Semana, em 12 de maio de 1894. De ordem memorialista, como boa parte da obra machadiana, o conto se desdobra em buscar, pela memória de um narrador – protagonista que retoma uma história acontecida anos antes, em sua juventude, reatualizar o significado do que se passara. Um narrador que procura formar o pequeno quebra-cabeça a partir das peças que lhe restam, um pouco fragmentadas pelo caráter fugidio da lembrança. “Missa do Galo” se configura como um modelo de conto muito comum a esse período de toda a extensa obra machadiana, a ser publicado em jornal ou revista de circulação semanal ou mensal. Em revista, foram dois momentos distintos em que foi publicado: primeiramente em 1894 (revista A Semana) e, um ano depois, em A Revista Brasileira. Foi publicado também no livro Páginas Recolhidas, de 1899.

Neste conto, são visíveis as influências naturalistas: a preferência pelas descrições psicológicas em detrimento das físicas, a exploração da sexualidade e da psique humana, suas vontades escondidas e comportamentos que não são socialmente aceites.

Em “Missa do Galo”, o protagonista/narrador passa a noite em claro na casa do casal Conceição e Meneses na capital carioca. Está à espera de um amigo para assistirem juntos, à meia noite, à Missa do Galo, a que o título se refere. Este narrador desenvolve seu relato a partir do que tem em sua memória, como se olhasse para trás e começasse a contar ao leitor o que lhe acontecera anos antes durante aquela noite de espera para a missa. A partir da engrenagem escorregadia da memória, o narrador, que em determinado ponto do conto, saberemos que atende pelo nome de “Sr. Nogueira”, se esforça para dar à sua história o máximo de verossimilhança, embora esteja consciente e faça menção ao fato de que essas lembranças podem muito bem estar confusas. O tempo passou e o que restou daquela noite são fragmentos de uma conversa que teve na meia-luz da sala entre ele e Conceição, de uma atmosfera de tensão sexual e dissimulação, temas que aliás são caros a Machado e podemos pontuar em diversos contos e romances.

O aspecto memorialista do conto se explicita pela presença de termos como “lembro que” e pela própria abordagem do narrador em relação ao que lembra. Períodos como “Há impressões dessa noite, que me aparecem truncadas ou confusas, deixa que fica a cargo do espectador (leitor) preencher as possíveis lacunas deixadas pelo enredo.

Contradigo-me, atrapalho-me” estão presentes ao longo de todo o texto e ajudam a criar uma espécie de distância segura entre quem narra e quem lê, estando a própria narrativa sob o xeque da desconfiança, o que reflete o tema da infidelidade que paira no ar. Mostra- se também um narrador confuso, sem conseguir entender de fato o que estava se passando na sua cabeça naquele momento.

Embora o conto trate, de alguma forma, o tema do adultério (não só de Meneses com a amante mas também de Conceição com Nogueira), na verdade, o único contato físico entre ambos foi um leve toque no ombro. Assim, não houve concretização do desejo que sentiam um pelo outro; o que é relevante aqui não é o que realmente aconteceu, mas o que poderia ter acontecido (Machado de Assis, busca deixar o mistério no ar, essa é uma das características que envolve o leitor aos poucos).

É pelo estudo que esta narração em primeira pessoa faz de um acontecimento que soa distante que podemos detectar certos aspectos que ampliam um pouco as referências que temos internas ao próprio conto e àquela própria realidade. Demarcada logo de início pelo verbo conjugado “pude”, na primeira frase, e colocando de pronto a questão fundamental do conto “nunca pude entender”, esta primeira pessoa já se mostra distante do objeto que pretende e vai narrar: deixa o benefício da dúvida ao leitor do que de fato aconteceu naquela determinada noite. Funcionando como um personagem do tipo “forasteiro” que visita a capital carioca, Nogueira, que é de Mangaratiba, interior do Rio de Janeiro, parece passar por um rito de iniciação que faz um paralelo interessante com o rito da própria Missa do Galo, nome dado pela tradição católica à missa celebrada na véspera do Natal, com uma simbologia muito forte referente à anunciação do Messias na Terra. O rito do galo que anuncia as primeiras horas do sol na madrugada e o rito de indícios de certa iniciação sexual (pelo tom do diálogo com Conceição) ajudam a desdobrar a figura deste narrador que, à época do ocorrido, tinha apenas dezessete anos, como relata na primeira frase do conto.

John Gladson, professor e tradutor inglês de obras de Machado de Assis, Bernado Carvalho, entre outros.

Para John Gledson, organizador de uma antologia já clássica dos contos de Machado, é na figura feminina de Conceição que esse efeito se mostra com mais clareza, em suas falas e em especialmente no que não diz: ela “não é necessariamente tão passiva e monótona como o narrador imagina; a frase final do conto (‘ouvi, mais tarde, que casara com o escrevente juramentado do marido’) está magnificamente colocada para nos fazer perceber o quanto esse narrador deixa de ver”. Para Gledson, aliás, Machado estava muito ciente de que escrevia para um público majoritariamente feminino, em que a maioria das mulheres dos contos são como as leitoras do Jornal das Famílias e do A Estação: “ricas, ou pelo menos de classe média, casadas ou no mercado matrimonial”.

A desconfiança do narrador em relação à Conceição termina por colocá-lo em uma situação de relato em que ele também desconfia já de sua memória, daqueles longínquos tempos que “contava dezessete anos”.  Percebe – se que há um tom de brevidade e “algo” nas entrelinhas

O que  se tem em “Missa do Galo” é um clima de dúvida, de hesitação e de ambivalência em relação ao que se vê e ao que se sente. Compactuar com a sedução (possível, em potencialidade) de Conceição ou ir à Missa do Galo, quando o amigo já lhe chama da janela, ao fim do conto, resistindo a ela, portanto? A figura feminina assume um papel central na obra de Machado de Assis, a mulher enigmática.

A esposa, Conceição, de início é ilustrada como uma “santa” – tom irônico da obra Machadiana que faz prender a atenção do leitor e deixar uma indagação no ar. “Quando Nogueira acaba de falar e ela endireita a cabeça, cruza os dedos e sobre eles pousa o queixo, “tendo os cotovelos nos braços da cadeira, tudo sem desviar de mim os grandes olhos espertos”. Dessa forma, a história começa a adquirir uma certa aura de sexualidade

O conto também retrata a mulher que deveria manter a fidelidade e relacionar-se apenas e tão somente com seu marido, evitando relações sexuais anteriores ao matrimônio e, em sua constância, evitando relacionar-se com outros homens. O homem, por sua vez, parecia gozar de certo prestígio na traição

É na discussão dos romances e do que cada um lê que a insinuação e a sensualidade mais amplificam cada palavra ou meia-palavra. Além de registrar um período da nossa literatura, e o registro das publicações de Machado em jornais e revistas, ele mesmo, um escritor maduro já familiarizado a suas lógicas de mercado, o conto deixa em aberto o não dito pelo que se é dito. “Eu gosto muito de romances, mas leio pouco, por falta de tempo. Que romances é que você tem lido?”

Busca-se assim o passado no presente, no presente relato especialmente. A armadilha das repetições dos mesmos enganos, da lembrança que vem fugidia como naquela atmosfera de meia-luz em que se deu o diálogo com Conceição faz titubear a voz, faz não confirmar a ocorrência, vasculhando o que sobrou daquela ocasião. E é justamente nesta investigação do passado, do rito da juventude, do choque entre o sagrado (o Natal) e o profano (o adultério), dos romances que nos punham ideias na cabeça, e das conversas que tínhamos sobre essas histórias, que se desvela o sentimento que resta firme, inalterável: que somos todos resultado de nosso passado. Machado de Assis, no seu estilo bastante peculiar, contrapõe sagrado e profano, vontade e proibição, desejo carnal e compromisso moral de forma primorosa, tornando este texto de temática aparentemente simples (duas pessoas conversando, durante a noite) numa narrativa carregada de simbologia. Por tudo isto, “Missa do Galo” continua sendo um dos escritos mais célebres do autor.

Segue o link para a apreciação da leitura do conto: http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bv000223.pdf

Indagações que podemos levantar a partir da leitura do conto

  • Conceição era uma “santa”. Por que ela aceitava tão passivamente as atitudes do marido?
  • O fato de Conceição ser considerada um “santa”, será que ela foi acometida por algum sentimento de raiva, ódio, ou vingança por ter sido deixada sozinha em plena noite de natal? Justifique.
  • Qual o sentimento que predominava em Nogueira em relação a Conceição? Desconfiança ou admiração por sua bondade?
  • O que de fato pode ter acontecido para que o personagem nunca tenha esquecido aquela conversa que teve com Conceição quando ele ainda era jovem?
  • Na sua opinião, a infidelidade é configurada? A intenção também poderia ser um ato traiçoeiro? Conceição teve essa intenção?
  • O conto A missa de galo aborda a questão da traição por parte do marido da Conceição e a necessidade da mulher manter o matrimônio familiar. Na sua opinião por que muitas vezes as pessoas acham que esse valor deve ser mantido apenas por parte da figura feminina?

Leia, abaixo, o conto Missa do Galo, de Machado de Assis:

Nunca pude entender a conversação que tive com uma senhora, há muitos anos, contava eu dezessete, ela trinta. Era noite de Natal. Havendo ajustado com um vizinho irmos à missa do galo, preferi não dormir; combinei que eu iria acordá-lo à meia-noite.

A casa em que eu estava hospedado era a do escrivão Meneses, que fora casado, em primeiras núpcias, com uma de minhas primas. A segunda mulher, Conceição, e a mãe desta acolheram-me bem, quando vim de Mangaratiba para o Rio de Janeiro, meses antes, a estudar preparatórios. Vivia tranqüilo, naquela casa assobradada da rua do Senado, com os meus livros, poucas relações, alguns passeios. A família era pequena, o escrivão, a mulher, a sogra e duas escravas. Costumes velhos. Às dez horas da noite toda a gente estava nos quartos; às dez e meia a casa dormia. Nunca tinha ido ao teatro, e mais de uma vez, ouvindo dizer ao Meneses que ia ao teatro, pedi-lhe que me levasse consigo. Nessas ocasiões, a sogra fazia uma careta, e as escravas riam à socapa; ele não respondia, vestia-se, saía e só tornava na manhã seguinte. Mais tarde é que eu soube que o teatro era um eufemismo em ação. Meneses trazia amores com uma senhora, separada do marido, e dormia fora de casa uma vez por semana. Conceição padecera, a princípio, com a existência da comborça; mas, afinal, resignara-se, acostumara-se, e acabou achando que era muito direito.

Boa Conceição! Chamavam-lhe “a santa”, e fazia jus ao título, tão facilmente suportava os esquecimentos do marido. Em verdade, era um temperamento moderado, sem extremos, nem grandes lágrimas, nem grandes risos. No capítulo de que trato, dava para maometana; aceitaria um harém, com as aparências salvas. Deus me perdoe, se a julgo mal. Tudo nela era atenuado e passivo. O próprio rosto era mediano, nem bonito nem feio. Era o que chamamos uma pessoa simpática. Não dizia mal de ninguém, perdoava tudo. Não sabia odiar; pode ser até que não soubesse amar.

Naquela noite de Natal foi o escrivão ao teatro. Era pelos anos de 1861 ou 1862. Eu já devia estar em Mangaratiba, em férias; mas fiquei até o Natal para ver “a missa do galo na Corte”. A família recolheu-se à hora do costume; eu meti-me na sala da frente, vestido e pronto. Dali passaria ao corredor da entrada e sairia sem acordar ninguém. Tinha três chaves a porta; uma estava com o escrivão, eu levaria outra, a terceira ficava em casa.

– Mas, Sr. Nogueira, que fará você todo esse tempo? perguntou-me a mãe de Conceição.

– Leio, D. Inácia.

Tinha comigo um romance, os Três Mosqueteiros, velha tradução creio do Jornal do Comércio. Sentei-me à mesa que havia no centro da sala, e à luz de um candeeiro de querosene, enquanto a casa dormia, trepei ainda uma vez ao cavalo magro de D’Artagnan e fui-me às aventuras. Dentro em pouco estava completamente ébrio de Dumas. Os minutos voavam, ao contrário do que costumam fazer, quando são de espera; ouvi bater onze horas, mas quase sem dar por elas, um acaso. Entretanto, um pequeno rumor que ouvi dentro veio acordar-me da leitura. Eram uns passos no corredor que ia da sala de visitas à de jantar; levantei a cabeça; logo depois vi assomar à porta da sala o vulto de Conceição.

– Ainda não foi? Perguntou ela.

– Não fui; parece que ainda não é meia-noite.

– Que paciência!

Conceição entrou na sala, arrastando as chinelinhas da a1cova. Vestia um roupão branco, mal apanhado na cintura. Sendo magra, tinha um ar de visão romântica, não disparatada com o meu livro de aventuras. Fechei o livro; ela foi sentar-se na cadeira que ficava defronte de mim, perto do canapé. Como eu lhe perguntasse se a havia acordado, sem querer, fazendo barulho, respondeu com presteza:

– Não! qual! Acordei por acordar.

Fitei-a um pouco e duvidei da afirmativa. Os olhos não eram de pessoa que acabasse de dormir; pareciam não ter ainda pegado no sono. Essa observação, porém, que valeria alguma coisa em outro espírito, depressa a botei fora, sem advertir que talvez não dormisse justamente por minha causa, e mentisse para me não afligir ou aborrecer. Já disse que ela era boa, muito boa.

– Mas a hora já há de estar próxima, disse eu.

– Que paciência a sua de esperar acordado, enquanto o vizinho dorme! E esperar sozinho! Não tem medo de almas do outro mundo? Eu cuidei que se assustasse quando me viu.

– Quando ouvi os passos estranhei; mas a senhora apareceu logo.

– Que é que estava lendo? Não diga, já sei, é o romance dos Mosqueteiros.

– Justamente: é muito bonito.

– Gosta de romances?

– Gosto.

– Já leu a Moreninha?

– Do Dr. Macedo? Tenho lá em Mangaratiba.

– Eu gosto muito de romances, mas leio pouco, por falta de tempo. Que romances é que você tem lido?

Comecei a dizer-lhe os nomes de alguns. Conceição ouvia-me com a cabeça reclinada no espaldar, enfiando os olhos por entre as pálpebras meio-cerradas, sem os tirar de mim. De vez em quando passava a língua pelos beiços, para umedecê-los. Quando acabei de falar, não me disse nada; ficamos assim alguns segundos. Em seguida, vi-a endireitar a cabeça, cruzar os dedos e sobre eles pousar o queixo, tendo os cotovelos nos braços da cadeira, tudo sem desviar de mim os grandes olhos espertos.

– Talvez esteja aborrecida, pensei eu.

E logo alto:

– D. Conceição, creio que vão sendo horas, e eu…

– Não, não, ainda é cedo. Vi agora mesmo o relógio; são onze e meia. Tem tempo. Você, perdendo a noite, é capaz de não dormir de dia?

– Já tenho feito isso.

– Eu, não; perdendo uma noite, no outro dia estou que não posso, e, meia hora que seja, hei de passar pelo sono. Mas também estou ficando velha.

– Que velha o quê, D. Conceição?

Tal foi o calor da minha palavra que a fez sorrir. De costume tinha os gestos demorados e as atitudes tranqüilas; agora, porém, ergueu-se rapidamente, passou para o outro lado da sala e deu alguns passos, entre a janela da rua e a porta do gabinete do marido. Assim, com o desalinho honesto que trazia, dava-me uma impressão singular. Magra embora, tinha não sei que balanço no andar, como quem lhe custa levar o corpo; essa feição nunca me pareceu tão distinta como naquela noite. Parava algumas vezes, examinando um trecho de cortina ou consertando a posição de algum objeto no aparador; afinal deteve-se, ante mim, com a mesa de permeio. Estreito era o círculo das suas idéias; tornou ao espanto de me ver esperar acordado; eu repeti-lhe o que ela sabia, isto é, que nunca ouvira missa do galo na Corte, e não queria perdê-la.

– É a mesma missa da roça; todas as missas se parecem.

– Acredito; mas aqui há de haver mais luxo e mais gente também. Olhe, a semana santa na Corte é mais bonita que na roça. São João não digo, nem Santo Antônio…

Pouco a pouco, tinha-se inclinado; fincara os cotovelos no mármore da mesa e metera o rosto entre as mãos espalmadas. Não estando abotoadas, as mangas, caíram naturalmente, e eu vi-lhe metade dos braços, muitos claros, e menos magros do que se poderiam supor. A vista não era nova para mim, posto também não fosse comum; naquele momento, porém, a impressão que tive foi grande. As veias eram tão azuis, que apesar da pouca claridade, podia contá-las do meu lugar. A presença de Conceição espertara-me ainda mais que o livro. Continuei a dizer o que pensava das festas da roça e da cidade, e de outras coisas que me iam vindo à boca. Falava emendando os assuntos, sem saber por quê, variando deles ou tornando aos primeiros, e rindo para fazê-la sorrir e ver-lhe os dentes que luziam de brancos, todos iguaizinhos. Os olhos dela não eram bem negros, mas escuros; o nariz, seco e longo, um tantinho curvo, dava-lhe ao rosto um ar interrogativo. Quando eu alteava um pouco a voz, ela reprimia-me:

– Mais baixo! Mamãe pode acordar.

E não saía daquela posição, que me enchia de gosto, tão perto ficavam as nossas caras. Realmente, não era preciso falar alto para ser ouvido; cochichávamos os dois, eu mais que ela, porque falava mais; ela, às vezes, ficava séria, muito séria, com a testa um pouco franzida. Afinal, cansou; trocou de atitude e de lugar. Deu volta à mesa e veio sentar-se do meu lado, no canapé. Voltei-me, e pude ver, a furto, o bico das chinelas; mas foi só o tempo que ela gastou em sentar-se, o roupão era comprido e cobriu-as logo. Recordo-me que eram pretas. Conceição disse baixinho:

– Mamãe está longe, mas tem o sono muito leve; se acordasse agora, coitada, tão cedo não pegava no sono.

– Eu também sou assim.

– O quê? Perguntou ela inclinando o corpo para ouvir melhor.

Fui sentar-me na cadeira que ficava ao lado do canapé e repeti a palavra. Riu-se da coincidência; também ela tinha o sono leve; éramos três sonos leves.

– Há ocasiões em que sou como mamãe: acordando, custa-me dormir outra vez, rolo na cama, à toa, levanto-me, acendo vela, passeio, torno a deitar-me, e nada.

– Foi o que lhe aconteceu hoje.

– Não, não, atalhou ela.

Não entendi a negativa; ela pode ser que também não a entendesse. Pegou das pontas do cinto e bateu com elas sobre os joelhos, isto é, o joelho direito, porque acabava de cruzar as pernas. Depois referiu uma história de sonhos, e afirmou-me que só tivera um pesadelo, em criança. Quis saber se eu os tinha. A conversa reatou-se assim lentamente, longamente, sem que eu desse pela hora nem pela missa. Quando eu acabava uma narração ou uma explicação, ela inventava outra pergunta ou outra matéria, e eu pegava novamente na palavra. De quando em quando, reprimia-me:

– Mais baixo, mais baixo…

Havia também umas pausas. Duas outras vezes, pareceu-me que a via dormir; mas os olhos, cerrados por um instante, abriam-se logo sem sono nem fadiga, como se ela os houvesse fechado para ver melhor. Uma dessas vezes creio que deu por mim embebido na sua pessoa, e lembra-me que os tornou a fechar, não sei se apressada ou vagarosamente. Há impressões dessa noite, que me aparecem truncadas ou confusas. Contradigo-me, atrapalho-me. Uma das que ainda tenho frescas é que, em certa ocasião, ela, que era apenas simpática, ficou linda, ficou lindíssima. Estava de pé, os braços cruzados; eu, em respeito a ela, quis levantar-me; não consentiu, pôs uma das mãos no meu ombro, e obrigou-me a estar sentado. Cuidei que ia dizer alguma coisa; mas estremeceu, como se tivesse um arrepio de frio, voltou as costas e foi sentar-se na cadeira, onde me achara lendo. Dali relanceou a vista pelo espelho, que ficava por cima do canapé, falou de duas gravuras que pendiam da parede.

– Estes quadros estão ficando velhos. Já pedi a Chiquinho para comprar outros.

Chiquinho era o marido. Os quadros falavam do principal negócio deste homem. Um representava “Cleópatra”; não me recordo o assunto do outro, mas eram mulheres. Vulgares ambos; naquele tempo não me pareciam feios.

– São bonitos, disse eu.

– Bonitos são; mas estão manchados. E depois francamente, eu preferia duas imagens, duas santas. Estas são mais próprias para sala de rapaz ou de barbeiro.

– De barbeiro? A senhora nunca foi a casa de barbeiro.

– Mas imagino que os fregueses, enquanto esperam, falam de moças e namoros, e naturalmente o dono da casa alegra a vista deles com figuras bonitas. Em casa de família é que não acho próprio. É o que eu penso; mas eu penso muita coisa assim esquisita. Seja o que for, não gosto dos quadros. Eu tenho uma Nossa Senhora da Conceição, minha madrinha, muito bonita; mas é de escultura, não se pode pôr na parede, nem eu quero. Está no meu oratório.

A idéia do oratório trouxe-me a da missa, lembrou-me que podia ser tarde e quis dizê-lo. Penso que cheguei a abrir a boca, mas logo a fechei para ouvir o que ela contava, com doçura, com graça, com tal moleza que trazia preguiça à minha alma e fazia esquecer a missa e a igreja. Falava das suas devoções de menina e moça. Em seguida referia umas anedotas de baile, uns casos de passeio, reminiscências de Paquetá, tudo de mistura, quase sem interrupção. Quando cansou do passado, falou do presente, dos negócios da casa, das canseiras de família, que lhe diziam ser muitas, antes de casar, mas não eram nada. Não me contou, mas eu sabia que casara aos vinte e sete anos.

Já agora não trocava de lugar, como a princípio, e quase não saíra da mesma atitude. Não tinha os grandes olhos compridos, e entrou a olhar à toa para as paredes.

– Precisamos mudar o papel da sala, disse daí a pouco, como se falasse consigo.

Concordei, para dizer alguma coisa, para sair da espécie de sono magnético, ou o que quer que era que me tolhia a língua e os sentidos. Queria e não queria acabar a conversação; fazia esforço para arredar os olhos dela, e arredava-os por um sentimento de respeito; mas a idéia de parecer que era aborrecimento, quando não era, levava-me os olhos outra vez para Conceição. A conversa ia morrendo. Na rua, o silêncio era completo.

Chegamos a ficar por algum tempo, – não posso dizer quanto, – inteiramente calados. O rumor único e escasso, era um roer de camundongo no gabinete, que me acordou daquela espécie de sonolência; quis falar dele, mas não achei modo. Conceição parecia estar devaneando. Subitamente, ouvi uma pancada na janela, do lado de fora, e uma voz que bradava: “Missa do galo! missa do galo!”

– Aí está o companheiro, disse ela levantando-se. Tem graça; você é que ficou de ir acordá-lo, ele é que vem acordar você. Vá, que hão de ser horas; adeus.

– Já serão horas? perguntei.

– Naturalmente.

– Missa do galo! repetiram de fora, batendo.

-Vá, vá, não se faça esperar. A culpa foi minha. Adeus; até amanhã.

E com o mesmo balanço do corpo, Conceição enfiou pelo corredor dentro, pisando mansinho. Saí à rua e achei o vizinho que esperava. Guiamos dali para a igreja. Durante a missa, a figura de Conceição interpôs-se mais de uma vez, entre mim e o padre; fique isto à conta dos meus dezessete anos. Na manhã seguinte, ao almoço, falei da missa do galo e da gente que estava na igreja sem excitar a curiosidade de Conceição. Durante o dia, achei-a como sempre, natural, benigna, sem nada que fizesse lembrar a conversação da véspera. Pelo Ano-Bom fui para Mangaratiba. Quando tornei ao Rio de Janeiro, em março, o escrivão tinha morrido de apoplexia. Conceição morava no Engenho Novo, mas nem a visitei nem a encontrei. Ouvi mais tarde que casara com o escrevente juramentado do marido.


Fonte: Contos Consagrados – Machado de Assis – Coleção Pretígio – Ediouro – s/d.

Referências:

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2 comentários

  1. ceeja-admin

    Parabéns pela postagem e pela iniciativa professora Wendi!!

  2. ceeja-admin

    Obrigada Profª Glória… esse Projeto Bem-te-vis tem muita parceria de todos os professores!

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